Sãos


Depois que você partiu, no lugar que você ocupava no sofá, ficou apenas um imenso vazio, e aquela mola espetada.

As moléculas da melodia ainda estão no ar.

Meus filhos nasceram todos avoados. Assim como meu pai, meus  irmãos, meus tios e meu avô. Apenas eu me sinto assim um porco sóbrio, perdido no meio da multidão de sãos,  numa encruzilhada do tempo.


Foda-se...
Pô, Dayse!?
Você limpou
Meu vô - mito sagrado?

Já não sei para aonde rir. Acordei às 4 soltando gases, sentido uma puta dor na ponta do pé esquerdo, como se tivesse sido mordido por algum cão desterrado ou um leão africano. Tive um sonho horrível esta noite. Felizmente não me recordo de mais nada.

Apenas permaneci imóvel na cama por alguns segundos, curtindo aquela dor aguda na ponta dos pés, ouvindo ao longe o miado de um gato em algum dos telhados vizinhos. Logo, aqueles lamentos me trouxeram à tona os átomos de uma canção do álbum DROP do Brian Eno, e só então resolvi levantar e ir mijar.

O negócio está se mexendo. Já não tenho mais pernas. Agora voo pelas ruas da cidade fotografando as pessoas, ou melhor, os tipos que aparecem na minha frente. Muitas vezes, ao avistar algumas dessas almas enviadas pelo Deus Tempo, tenho que correr, e dar a volta no quarteirão, para só então enquadrá-las num ângulo melhor, de frente para o Sol. Perco muitas fotos porque a memória da minha câmera está ficando fraca. 2400 arquivos! Preciso descarregar. Corro para a kit e me tranco no banheiro. Fico assim oras bolas no escuro revelando o filme, olhando aqueles rostos anônimos, que fogem de mim em perspectiva a todo momento, como diálogos da cruz. Há diversas técnicas para se fotografar pessoas em movimento na paisagem urbana. Conheço alguns fotógrafos que costumam abordar as pessoas e lhe explicar blá blá blá, pedir autorização para uma foto e blá blá... uma pose... Eu não. Uso a técnica do pernilongo mesmo. Procuro um tipo sanguíneo que me apraze e satisfaça meus instintos mais atávicos possíveis e, quando o mamífero menos espera, sem que perceba, sem que doa, sem que o gorila o agrida, de qualquer forma... cranck! ...ou melhor, click! Roubo sua alma para toda a minha eternidade com a minha câmera Kodak. Em seguida, levanto-me, limpo a boca, aciono a descarga, e mando para fora todos os retalhos dos sonhos da noite anterior. Ontem foi horrível a festa, bah!