Sou uma pessoa modesta e metida. Detesto nariz de cheira peido.

Às vezes saio pras ruas pra tomar um café, e penso em nunca mais voltar.

Acho tudo tão falso, tão irreal. Pura representação. Um teatro egoico e patético, em que todos têm razão, e só dizem coisas importantes, que os demais devem ouvir em silêncio. Menos eu, por favor. Me poupe, tá?

Minha vida se tornou uma horripilante armação metafisica lunar, que eu manipulo com o olhar e os dedos sujos de Manteiga Aviação presos na garganta.

Na calçada oposta, desvio-me dos pingos da chuva que caiu ontem à noite, e que agora despencam dos fios elétricos e dos cartazes do comércio podre.

Um homem de barba ruiva e olhar nublado me observa da janela de um sobrado mal assombrado, no fim da Rua 14. Estou surtando. Família Kisurta unida permanece unida.

Terça-feira da Semana Santa. Tenha santa paciência. Da janela do ônibus em movimento, vejo de relance um homem babando. Penso se devo ou não comprar, àquele horário, uma garrafa de vinho. Estou farto de ouvir as pessoas repetir o tempo todo como zumbis expressões do tipo  "com certeza", "é complicado", "impactar".

19 horas. Minha cabeça dói. Não há direção. Os pensamentos voam para todos os lados. Brotam do silêncio por todo espaço, dos mais diversos tipos e tamanhos. Os gatos apenas observam os pássaros molhados que voam bailando na brisa.

Ainda há pouco senti meu corpo tremer. Não queria mais escrever sobre isso, mas não consigo parar. Penso que essa foi a única coisa que me restou fazer com toda minha liberdade, e depois postar no Facebook, só para ver a cara de espanto do Sr. Falamansa ao ler essas bobeiras instintivas e idiotas, sem qualquer valor econômico, ha ha ha...

Ontem no elevador tive que suportar seu mau hálito. Um cheiro horrível de cigarro mentolado e dentes podres, misturado ao dos amendoins in natura que comia, os quais sempre me oferece, quebrando a casca, insinuando algo como "quer comer nozes, garoto?"

Eu, porém, prefiro ficar aqui dentro, quieto e imóvel, deitado de bruços, brochado nesse lugar sujo e rasgado. Até que terça à noitinha a Harpia Grande e Faminta surja repentinamente de uma dobradura do tempo e me salve, levando-me em seu bico para bem longe daqui, para que eu conheça lugares mais reais no Universo lá fora, onde eu não precise, pela manhã, sentar-me à beira da cama e recortar os sonhos nos arabescos florais da fronha do meu travesseiro deformado. Onde as palavras e a aparência das coisas não sejam assim tão importantes e indispensáveis, ou, pelo menos, não mais que suas atitudes. Discurso: apenas um lixo/fluxo colorido. Me causa enjoo...